Archive for the ‘Programação’ Category

Rodando testes antes do commit em Mercurial

outubro 12, 2011

Como todo mundo, entrei de cabeça na onda dos sistemas de versão distribuídos, como Git. Por várias razões, porém, meu DVCS “do coração” é Mercurial. (Razões as quais pretendo explicar em breve, por sinal).

De qualquer forma, vai aí minha primeira dica sobre o Mercurial. Frequentemente, estou consertando um bug em um projeto…

$ nano module1.c

…e, como uso TDD, rodo os testes:

$ make test
./run_all
................................................................................

OK (80 tests)

Quando os testes passam e o bug está corrigido, comito o código alterado:

$ hg commit -m "Bug #123 corrected"

Daí, passo a trabalhar em outra funcionalidade no mesmo projeto, escrevendo os testes primeiro:

$ nano test/module2.c

Novamente no espírito de TDD, vou rodar os testes, para quebrarem. Aperto então Control+P (ou ) para chegar ao comando que roda os testes novamente (make test). Infelizmente, porém, às vezes eu aperto Enter muito cedo, o que resulta em comitar minhas alterações recentes:

$ hg commit -m "Bug #123 corrected"

Isto é ruim porque cria uma versão com código quebrando no Mercurial. A solução paliativa é executar hg rollback (obrigado de novo, Stack Overflow!). Entretanto,  hg rollback é a pílula do dia seguinte do Mercurial: envolve vários riscos e deve ser usado com cuidado.

Então tive um estalo: por que não rodo os testes sempre antes do commit? A resposta é que eu comito por acidente, claro, mas posso fazer o Mercurial rodá-los antes de confirmar um commit: bastaria criar um hook. Para isto, alterei o programa que roda os testes para retornar um valor diferente de 0 (zero) quando os testes falhassem. Assim make test retorna um valor diferente de zero. Antes eu tinha algo assim:

void RunAllTests(void) {
    CuString *output = CuStringNew();
    CuSuite* suite = CuSuiteNew();
    CuSuiteAddSuite(suite, test_project_suite());
    // ... mais coisas aqui
    CuSuiteRun(suite);
    CuSuiteSummary(suite, output);
    CuSuiteDetails(suite, output);
    printf("%s\n", output->buffer);
    CuStringDelete(output);
    CuSuiteDelete(suite);
}
int main(void) {
    RunAllTests();
    return 0;
}

Agora eu tinha algo assim:

int RunAllTests(void) { // Retorna int ao invés de void
    CuString *output = CuStringNew();
    CuSuite* suite = CuSuiteNew();
    CuSuiteAddSuite(suite, test_project_suite());
    // ... mais coisas aqui
    CuSuiteRun(suite);
    CuSuiteSummary(suite, output);
    CuSuiteDetails(suite, output);
    printf("%s\n", output->buffer);
    CuStringDelete(output);
    CuSuiteDelete(suite);
    return suite->failCount; // Retorna contagem de erros
}
int main(void) {
    return RunAllTests(); // Retorna contagem
}

(Caso você esteja se perguntando, estou utiliando CuTest, o melhor e mais cacofônico framework de testes para C.)

Após fazer esta alteração, adicionei as linhas abaixo no arquivo .hg/hgrc do projeto:

[hooks]
pretxncommit.surefire = make test

O que acontece quando vou comitar erroneamente agora? Veja só:

$ hg commit -m "Bug #123 fixed"
cc -c  -Wall -std=c99 -Iinclude -Icutest src/test/util.c -o test_util.o
cc   run_all.o test_secretary.o  CuTest.o libsecretary.a   -o run_all
./run_all
...........................................................F....................

There was 1 failure:
1) test_util_beginning_of_day: src/test/util.c:34: expected 1 but was 0

!!!FAILURES!!!
Runs: 80 Passes: 79 Fails: 1

make: *** [test] Error 1
transaction abort!
rollback completed
abort: pretxncommit.surefire hook exited with status 2

Os testes falham, o que faz o programa que os roda retornar um valor diferente de zero. O programa, falhando, faz o make falhar, retornando também um valor diferente de zero. Como o make falhou, o hook falha também, impedindo que Mercurial siga em frente com o commit. Oras, o hook foi executado na fase pretxncommit (pre transaction commit), logo antes de Mercurial registrar o commit do código. Como o hook falhou, o commit não é efetivamente feito e meu histórico fica limpo.

Este exemplo utiliza testes escritos em C, mas serve para qualquer projeto. Eventualmente, não se pode alterar o programa que roda os testes, mas pode-se criar um script que lê a saída dos testes e retorna o valor correto.

Dividindo uma imagem em várias páginas com ImageMagick

novembro 19, 2008

Esses dias, um amigo me pergunta no Google Talk:

duvida de linux
tenho uma imagem
bem grande
e quero que ela seja impressa
em varias paginas
tipo um pedaco numa pagina
outro pedaco em outra

(Antes de prosseguir, uma nota: uma imagem nos formatos JPEG, PNG etc. não possui um tamanho, mas sim uma resolução. Assim, você pode exibir a imagem em qualquer tamanho, mas a resolução provavelmente vai impor limites à qualidade da imagem. Do mesmo modo, uma imagem de, digamos 1900 x 1200 pixels não tem um tamanho definido, mas sim uma resolução, e pode ser impressa tanto numa folha A3, folha A4 ou qualquer outra, variando apenas a qualidade da impressão.)

Quando alguém me fala de processar imagens no Linux, a primeira coisa que me vem a mente é a suíte ImageMagick. Entre as ferramentas do ImageMagick, a que mais uso é o convert, um programa de linha de comando que permite executar inúmeras operações sobre imagens, como converter de formato, redimensionar, gerar negativo, extrair um pedaço etc. etc.

A minha abordagem seria, então, dividir a imagem em pequenas imagens contíguas e retangulares. Para imprimir numa folha A4, por exemplo, as pequenas imagens deveriam ter proporções de uma folha A4. Como fazer isso?

O primeiro passo é descobrir como recuperar um retângulo de uma imagem. Isto é bem simples com o convert, basta utilizar a opção -crop. Para nossa missão, nós usaremos essa opção com uma string na forma

<width>x<height>+<x>+<y>

onde <width> é a largura da imagem resultante, em pixels; <height> é a altura da imagem resultante, em pixels; <x> e <y> são as coordenadas do pixel a partir de onde a imagem será cortada. Desse modo, se quisermos extrair um retângulo de 100 x 100 pixels de uma figura no arquivo lena.png de 512 x 512 pixels a partir do centro, faríamos algo como

convert -crop 100x100+256+256 lena.png output.png

Se a imagem for essa:

Lena Söderberg, SFW

Lena Söderberg, SFW

o resultado do comando acima será:

Resultado do corte da imagem

Resultado do corte da imagem

(Note que a opção -crop pode ser utilizada de outras maneiras. Confira na documentação da opção.)

Agora, precisamos gerar várias imagens a partir da primeira. Para não ficar fazendo isso na mão, podemos usar o comando for junto com o comando seq. (Se você não sabe usar o comando for e o comando seq do bash, essa página explica muito bem como funcionam.) Desse modo, se eu quisesse dividir a imagem da Lena acima em retângulos de 100 x 200 pixels, eu faria algo como:

for i in `seq 0 $((512/100))`; do
    for j in `seq 0 $((512/200))`; do
        convert -crop 100x200+$((i*100))+$((j*200)) \
            lena.png lena-$j-$i.png
    done
done

Estou dividindo a imagem numa planilha de imagens. Para cada linha, eu vou gerar 512/100 +1 = 6 imagens; para cada coluna, eu vou gerar 512/200 +1 = 3 imagens. (Se você não entendeu o “+1”, lembre-se que estamos contando a partir de zero, como em C, Java etc). A primeira imagem será o retângulo que vai do pixel de coordenada (0, 0) até o pixel de coordenada (100, 200); a segunda imagem irá do pixel de coordenada (100, 0) até o pixel de coordenada (200, 200); do mesmo modo, a primeira imagem da linha abaixo irá do pixel de coordenada (0, 200) até o pixel de coordenada (100, 400) etc. etc., contando as coordenadas a partir do canto superior esquerdo.

Ao rodar isso, gerei dezoito imagens. O resultado, que uni em uma imagem só por praticidade, pode ser visto abaixo. As linhas brancas separam as imagens geradas.

A borda branca separa as inúmeras imagens que foram geradas

Lena, dividida

(Note como o convert, ao encontrar um retângulo com um pedaço vazio, gera a maior figura possível. Isso pode ser notado nas bordas direita e inferior.)

Vamos generalizar o algoritmo. Faremos um script que recebe como parâmetro as dimensões originais do arquivo, as dimensões das imagens a serem geradas e o nome do arquivo original. O resultado será algo como

file=$1
originalx=$2
originaly=$3
slicex=$4
slicey=$5
numberx=$((originalx/slicex))
numbery=$((originaly/slicey))

for i in `seq 0 $numberx`; do
  for j in `seq 0 $numbery`; do
    convert -crop ${slicex}x${slicey}+$((i*slicex))+$((j*slicey)) \
        $file $file-$j-$i.png
  done
done

Agora, é só rodar o script dando como argumentos as dimensões originais e algumas dimensões proporcionais ao papel que queremos utilizar. Obteremos imagens que caberão perfeitamente no papel. (Vale lembrar que uma imagem não tem um tamanho em si, mas uma resolução: a qualidade final pode não ficar muito boa, dependendo da resolução da sua imagem.)

Para facilitar o trabalho, vamos juntar todas as imagens em um único arquivo PDF, o que facilitaria a impressão. O convert do ImageMagick pode fazer isso de maneira bem simples: se invocarmos o  convert passando como parâmetro uma série de imagens e, ao final, o nome de um arquivo com extensão .pdf, o resultado será um arquivo PDF com uma imagem por página. Assim sendo, ao chamar algo como

convert fig1.png fig2.png fig3.png one-per-page.pdf

one-per-page.pdf vai conter, ao vai conter, ao final, três páginas. Na primeira, estará fig1.png; na segunda, teremos fig2.png e, na terceira página, estará fig3.png.

Assim, vamos complementar o script criando uma variável que armazena o nome de todos os arquivos gerados (separados por um espaço em branco). Após gerar todas as imagens, vamos colocá-las todas em um arquivo PDF. O script final, você pode vê-lo no pastebin.

Eu apliquei o script sobre nossa imagem, usando as dimensões proporcionais a papel A4 (210 x 297 mm):

./split.sh lena.png 512 512 210 297

O resultado pode ser encontrado aqui. As páginas acabaram em formato A7, mas, se mandar imprimir, elas preencherão toda a folha A4 sem problemas.

O script está disponível para quem quiser fazer qualquer uso dele. Ademais, pode ser melhorado: é possível, por exemplo, fazer com que o ImageMagick descubra ele mesmo as dimensões iniciais da imagem. Entretanto, acredito que ele já possa ser bem útil

Obrigado, Renan Mendes, pela dica sobre como gerar PDFs. A todos, até mais!

Tratamento de erros em C com goto

setembro 13, 2008

Esses dias, começou-se a discutir na lista de discussão da Python Brasil razões para se utilizar exceções. Em um certo momento, um participante reconhecidamente competente comentou o quanto é difícil tratar erros através do retorno de funções, como em C.

Quando se tem um algoritmo complexo, cada operação passível de erro implica em uma série de ifs para verificar se a operação ocorreu corretamente. Se a operação tiver falhado, será necessário reverter todas as operações anteriores para sair do algoritmo sem alterar o estado do programa.

Vejamos um exemplo. Suponha que eu tenha a segunte struct para representar arrays:

typedef struct {
        int size;
        int *array;
} array_t;

Agora, eu vou fazer uma função que lê, de um arquivo texto, o número de elementos a ser posto em um desses arrays e, logo em seguida, os elementos. Essa função também vai alocar a struct do array e o array de fato. O problema é que essa função é bastante propensa a erros, pois podemos não conseguir

  • abrir o arquvo dado;
  • alocar a struct;
  • ler o número de elementos do arquvo dado, seja por erro de entrada/saída, seja por fim do arquivo;
  • alocar memória para guardar os elementos a serem lidos;
  • ler um dos elementos, seja por erro de entrada/saída, seja por fim do arquivo.

Complicado, né? Note que, se conseguirmos abrir o arquivo mas não conseguirmos alocar a struct, temos de fechar o arquivo; se conseguirmos abrir o arquivo e alocar a struct mas não conseguirmos ler o número de elementos do arquivo, temos de dealocar a struct e fechar o arquivo; e assim por diante. Assim sendo, se verificarmos todos os erros e adotarmos a tradição de, em caso de erro, retornar NULL, nossa função seria mais ou menos assim:

array_t *readarray(const char *filename) {
        FILE *file;
        array_t *array;
        int i;

        file = fopen(filename, "r");
        if (file == NULL) return NULL;

        array = malloc(sizeof(array_t));
        if (array == NULL) {
		fclose(file);
		return NULL;
	}

        if (fscanf(file, "%d", &(array->size)) == EOF) {
		free(array);
		fclose(file);
		return NULL;
	}

        array->array = malloc(sizeof(int)*array->size);
        if (array->array == NULL)  {
		free(array);
		fclose(file);
		return NULL;
	}

        for (i = 0; i < array->size; i++) {
                if (fscanf(file, "%d", array->array+i) == EOF) {
			free(array->array);
			free(array);
			fclose(file);
			return NULL;
		}
        }
        return array;
}

De fato, bastante trabalhoso, e com muito código repetido…

Note, porém, como há duas situações no código acima. Em uma, quando tenho duas operações para reverter, preciso reverter primeiro a última executada, e depois a anterior. Por exemplo, quando vou dealocar tanto a struct quanto o array de inteiros, preciso dealocar primeiro o array de inteiros e depois a struct. Se dealoco a struct primeiro. posso não conseguir dealocar o array posteriormente.

Na outra situação, a ordem não importa. Por exemplo, se vou dealocar a struct e fechar o arquivo, não importa em que ordem eu o faça. Isso implica que eu posso, também, reverter primeiro a última operação executada e depois a primeira operação.

Qual o sentido disso? Bem, na prática, nunca vi uma situação onde eu tenha de reverter primeiro a primeira operação executada, depois a segunda e assim por diante. Isso significa que, quando faço as operações a(), b(), c() etc. a maneira “natural” de revertê-las é chamando os reversores de trás para frente, mais ou menos como:

a();
b();
c();
/* ... */
revert_c();
revert_b();
revert_a();

Agora, vem o pulo do gato. No código acima, após cada operação, vamos colocar um if para verificar se ela falhou ou não. Se falhou, executar-se-á um goto para o reversor da última operação bem sucedida:

a();
if (failed_a()) goto FAILED_A;
b();
if (failed_b()) goto FAILED_B;
c();
if (failed_c()) goto FAILED_C;
/* ... */
revert_c();
FAILED_C:
revert_b();
FAILED_B:
revert_a();
FAILED_A:
return;

Se  a() falhar, o algoritmo retorna; se  b() falhar, o algoritmo vai para FAILED_B:, reverte  a() e retorna; se c() falhar, o algoritmo vai para FAILED_C, reverte b(), reverte  a() e retorna. Consegue ver o padrão?

Pois bem, se aplicarmos esse padrão à nossa função readarray() o resultado será algo como:

array_t *readarray(const char *filename) {
        FILE *file;
        array_t *array;
        int i;

        file = fopen(filename, "r");
        if (file == NULL) goto FILE_ERROR;

        array = malloc(sizeof(array_t));
        if (array == NULL) goto ARRAY_ALLOC_ERROR;

        if (fscanf(file, "%d", &(array->size)) == EOF)
                goto SIZE_READ_ERROR;

        array->array = malloc(sizeof(int)*array->size);
        if (array->array == NULL) goto ARRAY_ARRAY_ALLOC_ERROR;

        for (i = 0; i < array->size; i++) {
                if (fscanf(file, "%d", array->array+i) == EOF)
                        goto ARRAY_CONTENT_READ_ERROR;
        }
        return array;

        ARRAY_CONTENT_READ_ERROR:
        free(array->array);
        ARRAY_ARRAY_ALLOC_ERROR:
        SIZE_READ_ERROR:
        free(array);
        ARRAY_ALLOC_ERROR:
        fclose(file);
        FILE_ERROR:
        return NULL;
}

Quais as vantagens desse padrão? Bem, ele reduz a repetição de código de reversão de operações e separa o código de tratamento de erro da lógica da função. Na verdade, apesar de eu achar exceções o melhor método de tratamento de erros moderno, para tratamento de erros in loco (dentro da própria função) eu acho esse método muito mais prático.

Very funny.vbs

julho 11, 2008

Hoje, recebo o seguinte e-mail de um amigo que trabalha com Visual Basic:

O Belo (e possivelmente bons conselhos, no geral, de como fazer código bom):
http://www.visibleprogress.com/vb_error_handling.htm

e o Horroroso
http://blogs.msdn.com/ericlippert/archive/2004/09/09/227461.aspx

O primeiro link realmente tem sugestões boas e interessantes para quem programa em Visual Basic. O segundo é uma lista de erros que podem ocorrer em Visual Basic e VBScript. O erro que me chamou a atenção foi

48 Error in loading DLL

Erros em carregamento de DLL em Visual Basic não são novidade; o que me surpreendeu é que esse erro também pode ocorrer com VBScript.

O ILOVEYOU, senhores, era mais que inevitável: era praticamente o resultado das leis da Fisíca.


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